Apostas Desportivas e Jovens em Portugal — Dados e Proteção

Análise das apostas entre jovens portugueses

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Acompanho o mercado de apostas português há vários anos, e uma tendência que me preocupa profissionalmente é a representação desproporcional de jovens nos novos registos. Os dados do SRIJ são claros: 34,9% dos novos registos pertencem à faixa etária 18-24 anos. É a primeira geração a crescer com apostas online legais acessíveis desde a maioridade, e esta realidade traz tanto oportunidades como riscos que merecem atenção cuidadosa de reguladores, operadores e da sociedade em geral.

Os números contam uma história complexa. Por um lado, jovens adultos têm todo o direito de participar em atividades legais como apostas desportivas após atingirem a maioridade. Por outro, a vulnerabilidade a comportamentos problemáticos pode ser maior nesta faixa etária por razões neurobiológicas e sociais, e as ferramentas de proteção existem precisamente para mitigar estes riscos. Analisar os dados ajuda a compreender o fenómeno e a promover abordagens responsáveis.

O mercado de jogo online em Portugal movimentou 23 mil milhões de euros em 2025, com aproximadamente 5 milhões de registos de jogadores nas plataformas licenciadas. O perfil demográfico destes jogadores revela uma concentração significativa nas faixas etárias mais jovens — um padrão que difere de atividades de jogo tradicionais e que reflete a natureza digital do mercado atual.

Jovens nas Apostas: Os Números

A faixa etária 25-34 anos representa 33,4% dos jogadores registados — a maior fatia individual. Mas quando combinamos com os 18-24 anos e parte dos 35-44, vemos que jogadores com menos de 45 anos constituem 77,4% do total de registos. É um mercado jovem em todos os sentidos.

Os 34,9% de novos registos vindos da faixa 18-24 superam proporcionalmente a representação desta faixa na população adulta portuguesa. Jovens adultos estão a entrar no mercado de apostas a taxas superiores às de faixas etárias mais velhas. Esta tendência reflete provavelmente familiaridade com tecnologia e normalização das apostas online.

A preocupação adicional vem dos dados sobre jogo ilegal: 43% dos jogadores entre 18-34 anos usam plataformas não licenciadas. Esta percentagem supera a média de 40% para toda a população. Jovens parecem mais propensos a ignorar — por desconhecimento ou indiferença — os riscos de operadores ilegais.

Os números de autoexclusão também merecem atenção. Em junho 2025, existiam 326,4 mil registos autoexcluídos. Embora não haja desagregação pública por idade, o crescimento de 27% homólogo sugere consciência crescente de problemas — ou problemas crescentes que requerem esta medida.

Tendências de Comportamento Entre Jovens

Os jovens apostadores portugueses diferem em comportamento dos mais velhos em aspetos significativos e mensuráveis. A preferência por mobile é mais acentuada — consistente com a tendência europeia onde 58% das receitas de jogo online vêm de dispositivos móveis. Apostas através de app ou browser mobile são a norma para esta geração, não a exceção ou alternativa ocasional ao desktop.

Os mercados preferidos também diferem entre faixas etárias. Além do futebol que domina em todas as idades com 75,6% das apostas desportivas, os jovens mostram maior interesse em esports e em mercados de nicho dentro de competições tradicionais. O conhecimento de jogos eletrónicos competitivos e familiaridade com plataformas de streaming traduz-se em conforto com apostas em títulos como Counter-Strike, League of Legends ou Valorant.

A influência de redes sociais e criadores de conteúdo é fator distintivo desta geração. Tipsters, influencers de apostas, e comunidades online em plataformas como Twitter, Discord ou Telegram moldam perceções e comportamentos de uma forma que não afeta tanto apostadores mais velhos. Esta exposição pode ser educativa ou profundamente problemática dependendo da qualidade e intenção da informação partilhada.

A tolerância ao risco pode ser diferente por razões neurobiológicas bem documentadas. Estudos em outros países sugerem que jovens adultos podem subestimar riscos e sobrestimar capacidade de controlo — padrões comuns a outras atividades de risco nesta faixa etária. Sem dados específicos portugueses publicados, é prudente assumir que estas tendências globais se aplicam ao nosso mercado.

O acesso fácil e constante através de smartphones remove barreiras que anteriormente existiam. Não é preciso ir a uma casa de apostas física ou sentar-se em frente a um computador — a aposta está sempre à distância de um toque no bolso. Esta conveniência pode amplificar padrões de jogo impulsivo.

Riscos Específicos Para Jovens Apostadores

A vulnerabilidade financeira é preocupação central. Jovens adultos têm tipicamente rendimentos mais baixos e menos poupanças do que adultos estabelecidos. Perdas que seriam inconvenientes para um profissional de 40 anos podem ser devastadoras para um estudante ou jovem trabalhador.

A normalização pode distorcer perceções de risco. Quando apostas estão integradas na experiência de ver desporto — publicidade constante, apps no telemóvel, conversas entre amigos — pode parecer atividade inofensiva quando na realidade tem potencial de dano significativo.

O uso de plataformas ilegais por 43% dos jovens apostadores expõe-os a riscos adicionais: ausência de proteções de jogo responsável, possibilidade de fraude, impossibilidade de recorrer ao regulador em caso de disputa. São riscos evitáveis que afetam desproporcionalmente esta faixa etária.

Os padrões de jogo podem estabelecer-se cedo e persistir. Comportamentos problemáticos desenvolvidos nos primeiros anos de apostas podem ser difíceis de alterar mais tarde. A prevenção e a educação nesta fase são particularmente valiosas.

Medidas de Proteção e Sensibilização

Os operadores licenciados são obrigados a implementar ferramentas de jogo responsável — limites de depósito diários, semanais e mensais, alertas de tempo de sessão, períodos de pausa, e mecanismos de autoexclusão. Estas ferramentas existem para todos os jogadores mas podem ser especialmente importantes para jovens que estão a desenvolver hábitos de jogo e podem não ter ainda consciência clara dos seus padrões.

A verificação de idade é requisito legal incontornável. Os operadores devem confirmar que jogadores têm pelo menos 18 anos antes de permitir acesso pleno à plataforma e realização de apostas. Os sistemas de verificação usam documentos oficiais como Cartão de Cidadão ou passaporte, e podem incluir cruzamento com bases de dados públicas para garantir conformidade com a legislação.

Campanhas de sensibilização específicas para jovens adultos existem em Portugal, embora a sua visibilidade e eficácia variem consideravelmente. A APAJO e o Instituto de Apoio ao Jogador desenvolvem iniciativas dirigidas a este público, reconhecendo que mensagens genéricas sobre jogo responsável podem não ressoar com audiências mais jovens habituadas a comunicação diferente.

Como disse Pedro Hubert, Diretor do Instituto de Apoio ao Jogador: «Esta iniciativa pretende informar, avaliar, aconselhar e, potencialmente, encaminhar para acompanhamento profissional pessoas que se vejam numa situação de risco.» Este tipo de apoio proativo é particularmente relevante para jovens que podem não procurar ajuda por conta própria.

A educação sobre probabilidades, margem da casa, e expectativa matemática deveria idealmente começar cedo, antes mesmo da idade legal para apostar. Compreender que as apostas são estruturalmente desfavoráveis ao jogador a longo prazo é conhecimento protetor que permite participação informada para quem escolhe jogar. Para informação completa sobre ferramentas de proteção disponíveis, consulte o guia de jogo responsável em Portugal.

Como é verificada a idade dos apostadores em Portugal?
Os operadores licenciados são obrigados a verificar a idade antes de permitir acesso pleno à plataforma. O processo inclui submissão de documento de identificação oficial (Cartão de Cidadão, passaporte) e, em alguns casos, cruzamento com bases de dados para confirmar a data de nascimento. Menores de 18 anos não podem legalmente apostar em Portugal.
Os operadores verificam a idade dos jogadores?
Sim, a verificação de idade é requisito legal obrigatório. Todos os operadores licenciados pelo SRIJ devem implementar processos de KYC (Know Your Customer) que incluem confirmação de maioridade. A verificação pode ser pedida no registo ou antes do primeiro levantamento, mas é sempre obrigatória para acesso pleno à conta.